Postado por Marcos Assis | | Posted On terça-feira, 18 de maio de 2010 at 14:55



Artista – U2
Álbum – Boy
Ano de lançamento - 1980


A década de 80 começava recheada de boas bandas. Joy Division, Talking Heads, The Clash. De Dublin, na Irlanda, cidade conhecida apenas pelos ataques sangrentos do I.R.A, (Exército Republicano Irlandês), e pelas brigas entre católicos e protestantes, uma obscura banda lançava o primeiro de uma série de álbuns que os tornaria um dos maiores grupos do mundo nas décadas seguintes.
Boy, lançado em 1980 pelo U2, unia o bom e velho rock and roll com a fúria punk da época. As guitarras cheias de delay e harmônicos de The Edge, estilo característico e inigualável, a voz juvenil, na época, de Bono Vox, o baixo marcado e simples de Adam Clayton e a bateria marcial de Larry Mullen Jr, já no primeiro disco mostravam um entrosamento e uma química própria das grandes bandas.
A capa mostra o menino Peter Radar, vizinho de Bono, e não trás nem o nome da banda nem do disco. I Will Follow abre o CD mostrando logo de cara o lado religioso da banda. A letra fala da relação com Deus, influência do país dos caras. Bono sempre foi meio mala em relação a esse lance de religião, forçando a barra de vez em quando. Ele mesmo declarou nos anos 90, que era meio demagogo, e que tinha se enchido de falar em nome de certas coisas, como religião e seu próprio país. Out of Control, Stories for Boys e The Eletric Co. são fantásticas. O trabalho instrumental é simples, indo direto ao assunto, ao que interessa, sem as firulas instrumentais intermináveis que tinham marcado o rock progressivo dos anos 70, e que tinha sido destruído pelo punk em 77.
Eles sempre estiveram envolvidos com questões mundiais, como a fome e a Aids. Em 1985, tocaram no Live Aid, um festival que reuniu as maiores bandas da época, como o Queen, com a grana sendo revertida para combater a fome na Etiópia.
O U2 manteve uma qualidade linear nos seus álbuns até Rattle and Hum, lançado em 1988. A partir daí a banda flertou com a música eletrônica, essa praga moderna, e acabou se perdendo um pouco em relação ao seu verdadeiro som.
Ao vivo eles são, junto com os Stones, as únicas grandes bandas de estádio que sobraram. Bandas de estádio são as aquelas que, diante do crescimento do rock no final dos anos 70, passaram a tocar em grandes arenas, pois lugares pequenos já não acomodavam seu público.
Confira alguns vídeos memoráveis dos caras, como o Live at The Red Rocks e Rattle and Hum. Ouvindo a discografia deles até 1988, no álbum Rattle and Hum, você estará com o melhor que o U2 produziu, em mais de 30 anos de carreira.


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Postado por Marcos Assis | | Posted On at 14:15



Artista – Camisa de Vênus
Álbum – Batalhões de estranhos
Ano de lançamento - 1985


Rock and roll, da melhor qualidade, vindo da Bahia. Estranho? Se você está acostumado com axé, abadá ou Pitty é muito estranho.
Marcelo Nova é um daqueles caras que você adora ou odeia, não tem meio termo. Conhecido por sua língua afiada, dando opinião sobre tudo que lhe perguntam, e também sobre o que não lhe perguntam, Marcelo ficou conhecido por ser o vocal do Camisa de Vênus, banda que nos anos 80 foi um dos precursores do rock no país.
O segundo álbum da banda, Batalhões de estranhos, lançado em 1985, impressiona pela musicalidade e pela atitude dos caras. Reza a lenda que o nome da banda era considerado "indecente" pela sua gravadora, sendo assim a divulgação em rádio e televisão seria inviável. O Brasil estava recém saindo da ditadura militar e a censura ainda era muito comum na música. Diretores da gravadora Som Livre chamaram os membros da banda para uma reunião e “sugeriram” que mudassem de nome. Marcelo Nova disse que eles aceitavam a mudança e sugeriu que o novo nome de bate pronto: "capa de p...”. O Camisa de Vênus foi expulso da gravadora após essa reunião e seu disco retirado do catálogo da Som Livre. Por mais de um ano os caras ficaram sem gravadora. Esse era o espírito de Marcelo e do Camisa, o rock como diversão, sem frescuras nem papas na língua.
Batalhões de estranhos tem algumas das melhores músicas da história da banda. O hit Eu não matei Joana D’arc, Gothan City, um cover de Jard’s Macalé, Lena e outras pérolas. Talvez a melhor música do álbum seja Rostos e aeroportos. “Vou vestir a minha sombra, preciso me proteger. Eu sempre manegei bem as palavras, mas agora não sei o que dizer...”. Marcelo Nova, numa entrevista dada ao programa Showlivre, apresentado pelo vocalista da lendária banda punk paulista Inocentes, Clemente, declarou que a sua geração foi a última a se interessar por leitura. “Hoje os moleques querem escrever sobre as suas experiências, aí colocam três pode crer e dois tá ligado e acham que a música está pronta”. Sábias palavras...
Cantar “Oh Sílvia piranha...” ou gritar nos shows a frase que se tornou um lema da banda, “Bota pra f...”, numa época em que o país recém tinha reencontrado um pouco de liberdade de expressão, era o máximo para um jovem.
Se você está acostumado a ouvir a Penélope apresentando seus toscos programas na MTV, e não sabe que o pai dela é o Marcelo Nova, vocalista do Camisa de Vênus, vá atrás da banda do velho da beldade.
Você talvez se surpreenda ao descobrir que já houve rock de qualidade nesse país.


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Postado por Marcos Assis | | Posted On domingo, 29 de novembro de 2009 at 05:17



Artista – Rob Halford
Álbum – Resurrection
Ano de lançamento - 2000

Metal God, deus do metal. O que dizer sobre um cara que leva esse adjetivo no nome?
Alguns vocalistas conseguem fazer até trabalhos melhores quando se desvinculam de suas bandas “oficiais”. Bruce Dickinson, do Iron Maiden, e Rob Halford, vocalista do Judas Priest, são dois exemplos disso.
Halford tem tanta “moral” e carisma no mundo do metal que nem quando assumiu sua homossexualidade os fãs o abandonaram. No mundo “metálico” isso é raro, pois os músicos do estilo estão sempre posando de durões rodeados de belos espécimes femininos...
Seu último álbum tinha sido Voyeurs, com a banda Two, uma parceria um tanto polêmica com Trent Reznor, do Nine Inch Nails, banda que mistura peso com música eletrônica num som caótico. A pergunta era se Halford estava desvirtuando seu som. Os fãs não gostaram muito dessa incursão pelo mundo eletrônico, parecia que o deus do metal estava se afastando de suas origens.
Depois do trabalho com o Two, Halford precisava renascer para os fãs do metal, digamos assim, e o fez com um álbum avassalador com um nome bem adequado, Resurrection. A capa mostra o deus do metal numa Harley Davidson, sua marca registrada nos shows do Judas Priest, onde entra no palco pilotando a própria.
Made in Hell, a segunda música do álbum fala de sua história como astro do metal, citando até o Brasil. “Eu levei o grito pelo mundo, de Londres à Los Angeles. Levei ao centro de Tóquio, explodiu o godzilla. E então o som da fúria foi de Sidney até o Brasil. Deixou os russos loucos porque eles nunca tiveram sua parte. O palco, as luzes e os amplificadores estão em chamas, veja-os queimar. De toda essa insanidade os deuses do metal vão retornar.”
The One You Love To Hate tem a participação especialíssima de Bruce Dickinson. Duas das melhores vozes do heavy metal juntas, fantástico.
O ponto alto do álbum é Silent Screams, que ao vivo se torna mais fantástica ainda. “Fecho meus olhos e um milhão de faces parecem em minha mente. Respire e encha minha alma perturbada com toda a humanidade, acabando com a dor. O homem de preto, eu estou retornando para lançar meu ódio maldito...”
Pouco depois do lançamento de Resurrection,, Halford tocou no Brasil, em sua primeira grande aparição depois da volta ao peso metálico. Sua apresentação no Rock In Rio 3, em 2001 na cidade do rock, no Rio de janeiro, foi sem sombra de dúvida a melhor do festival. Com uma banda fantástica e tocando com um peso fenomenal, Halford deixou o público boquiaberto. Vestido de couro dos pés a cabeça, Halford manteve-se impassível mesmo com 40 graus da noite carioca. Ao final, com uma bandeira do Brasil enrolada no pescoço, as mais de 100.000 pessoas cantaram em uníssono um dos hinos do metal, Breaking The Law, do Judas Priest.
Vida longa ao deus do metal.


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Postado por Marcos Assis | | Posted On quarta-feira, 28 de outubro de 2009 at 12:41



Artista – New York
Artista – Lou reed
Ano de lançamento - 1989

Lou Reed vem pautando a agenda musical há mais de trinta anos. Ao lado de John Cale, Moe Tucker e Sterling Morrison, formou uma das mais inovadoras e influentes bandas de todos os tempos, o Velvet Undreground.
Lou já foi andrógino, foi casado com um travesti e já morou na rua se arrastando pelos becos de Nova Yorque movido a anfetamina e álcool. Foi literalmente resgatado por David Bowie, que o levou para Berlin, na Alemanha, para que voltasse a produzir. Avesso a regras e estereótipos, Lou sempre rendeu boas histórias para os repórteres. Numa entrevista á antiga revista Bizz, publicada no Brasil nos anos 80-90, o repórter estava fumando um cigarro Marlboro. Lou disse que estava tentando diminuir o fumo, tragando um Carlton, mas que não resistia ao ver um “cigarro de verdade”. Ato contínuo, tomou emprestada, digamos assim, a carteira de cigarro do repórter... Típico de sua personalidade e de um tempo em que ninguém se preocupava em ser politicamente correto. Éramos felizes e não sabíamos...
Seu trabalho solo teve altos e baixos, drogas e ostracismo. New York, de 1989, marca um dos seus melhores momentos como compositor e letrista. Lou fala sobre sua cidade, sobre o submundo de Nova York, talvez sua maior paixão.
Os guetos, a noite cheia de tentações, as drogas, as prostitutas, os bares e os bairros da cidade são retratados nas canções do disco. Lou é um rocker, no melhor sentido da palavra. Visualmente, seu traje habitual é um jeans e uma jaqueta de couro, pois não são necessários muitos apetrechos modernos se você tem uma obra musical consistente. Caras como ele são raros hoje em dia, fiéis ao que pensam, fiéis ao que são, sem máscaras para enganar os fãs. Lou é Lou, e isso basta.
A forma de cantar e escrever suas letras se assemelha a um contador de histórias. Ele elabora as letras como uma sequência de fatos, e seu canto é pausado, às vezes mais agressivo ou mais ameno. De certa forma ele quase declama sua canção. Um exemplo é Dirty Boulevard: “Pedro vive no Wilshire Hotel. Olha pela janela sem vidro. As paredes são feitas de papelão, jornais nos seus pés. Seu pai lhe dá surras porque ele tá cansado demais para pedir esmola...”.
“Em “There is no time” ele fala sobre essa urgência de sensações que não nos deixa olhar para o que está ao nosso lado: “Isto não é hora para celebração. Isto não é hora para aperto de mãos. Isto não é hora para tapinhas nas costas. Isto não é hora para bandas de fanfarra. Isto não é hora para otimismo. Isto não é hora para reflexões intermináveis. Isto não é hora para o meu país, certo ou errado. Lembra o que isto trouxe. Não há tempo.”.
Lou é um dos raros artistas que unem qualidade nas músicas e nas letras, uma completa a outra. Hoje em dia muitas almas sinistras dizem que o rock está morto.
Certamente não é o caso de Lou. Ele se confunde com o próprio rock.


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Postado por Marcos Assis | | Posted On segunda-feira, 12 de outubro de 2009 at 21:12



Artista – Sex Pistols
Álbum – Never Mind The Bollocks
Ano de lançamento - 1977

Ícone do punk, o Sex Pistols definiu um estilo, criou um gênero musical.
Com o lema “do it yourself”, faça você mesmo, os Pistols popularizaram as chamadas músicas de três acordes. A idéia do punk era que qualquer pessoa pudesse fazer música, que não era necessário o virtuosismo das bandas progressivas que dominavam a cena musical da época, como o Genesis ou o Yes, para um garoto criar uma canção.
A bandeira do punk foi levantada para se opor ao ideal hippie de paz e amor. Numa Inglaterra abalada pelo desemprego, a pergunta era: o que poderia um jovem da classe operária fazer, além de montar uma banda de rock?
A história conta que o estilista Malcolm McLarem criou a banda. Malcolm tinha uma loja de roupas chamada Sex, em Londres, e teria escolhido a dedo os integrantes da banda. Steve Jones e Paul Cook (respectivamente guitarrista e baterista) eram frequentadores da Sex. Glen Matlock, baixista, trabalhava na loja aos sábados. Faltava escolher um vocalista.
Depois de descartar o crítico Nick Kent e o cantor Richard Hell para a vaga, a banda fez um teste com um adolescente de dentes podres chamado John Lydon. A “audição”foi feita própria loja, com o vocalista cantando numa jukebox. Johnny, que nunca tinha cantado na vida antes, foi aprovado, digamos, pela sua postura e comportamento anti-social. Em resumo, era perfeito para a vaga.
Para quem escuta as bandas que se dizem “punks” nos dias de hoje, e nunca ouviu os Pistols, o choque é imediato. John Lydon, Joãozinho podre para os íntimos, era um tipo digamos, imprevisível. Cabelo espetado cor de cenoura, alguns dentes podres, roupas rasgadas e uma ferocidade no palco fazem de Lydon o estereótipo do punk.
No álbum estão hinos como God Save The Queen, uma sátira do hino inglês “Deus salve a Rainha”, onde a banda já dá o tom do seu descaso com leis e ordem. Anarchy in the UK é um petardo, com sua letra caótica e um refrão destruidor, “I’m a antichrist, i’m a anarchist..." se contrapondo ao mundo flowerpower do movimento hippie, mostrando que, já naquela época, de lindo e maravilhoso este orbe azul não tinha quase nada.
Em 2007 a banda voltou para fazer alguns shows. Os velhinhos na casa dos 50 anos não se fizeram de rogados, e, mantendo a ironia, Lydon declarou que voltaram apenas pelo dinheiro dos shows.
Hoje você vê um moleque de cabelo azul, alargador na orelha, e camisa do NX Zero se dizendo “o punk””. Bullshit! Ouça os Pistols e descubra o que é punk.


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Postado por Marcos Assis | | Posted On sábado, 12 de setembro de 2009 at 06:10



Artista – Hojerizah
Álbum – Pele
Ano de lançamento - 1987

O underground brasileiro sempre produz bandas fantásticas, que vivem na obscuridade, fazendo música de excelente qualidade. Longe do “grande público”, essas bandas possuem um seleto grupo de fãs que ajudam a manter esse legado vivo.
O Hojerizah tinha um som extremamente refinado. O guitarrista Flávio Murrah é um dos maiores músicos que esse país já produziu. Dono de uma técnica apurada, Murrah transitava entre o rock e a música clássica na construção das melodias da banda. Com dedilhados intercalados com frases mais viscerais, sua guitarra dava, ao mesmo tempo, o clima e o peso que as músicas pediam. E dar peso numa canção, usando, praticamente, somente modulações, chorus e delay, não é para qualquer um. Sua guitarra era uma extensão da voz de Toni Platão. Com um vocal empostado, indo das notas graves até as mais agudas com tranqüilidade, Platão era um dos vocalistas mais técnicos do rock brasileiro, seguramente o de melhor voz. O baixista Marcelo Larrosa fazia a cozinha da banda junto com o baterista Álvaro Albuquerque. Os dois eram fiéis escudeiros dos devaneios de Murrah. Com criatividade, Larrosa acompanha, em muitos trechos, as linhas melódicas da guitarra, dando mais corpo para as músicas. Álvaro usa a bateria de forma muito bem colocada, inserindo peso nos momentos certos.
Murrah, independente de todo o seu talento e virtuosismo, sempre viveu envolto em problemas com álcool e desequilíbrios psicológicos. Inevitável a comparação com o gênio do Pink Floyd, Syd Barret. Os dois produziram pouco em quantidade, mas de forma grandiosa em qualidade. As letras da banda, assim como as músicas, são compostas por ele, algumas em parceria com Toni Platão. Todas seguem a linha de imagens metafóricas, que crescem junto com as melodias.
“Gritos” faz transparecer toda a técnica do guitarrista. “Ouço gritos, de onde vêm os gritos? Bordam risos, espaços e abrigos. Louvam sinos, por quem que ardem os sinos? E cantam hinos da pátria dos vencidos. Tocam um louco final, que faz o unir de punidos mortais ,e o que o som dirá?”. Murrah musicou um poema do poeta francês Jean Arthur Rimbaud , “Canção da torre mais alta”: “venha, venha o tempo que nos enamora. De pacientar, para sempre esqueço. Temores e dores, aos céus já se foram. E a sede malsã me obscurece as veias. Venha, venha o tempo que nos enamora. Assim a campina entregue ao olvido, extensa, florida de incenso e de joios, ao zumbir sinistro das moscas imundas. Venha, venha o tempo que nos enamora”. Vale lembrar que a palavra "olvido" significa descanso, repouso, esquecimento.
Larrosa, falando desse lado teatral e poético da banda, declarou numa entrevista para o Jornal do Brasil, em 1999: “naquela época todo mundo lia muito, haviam todos aqueles lançamentos da Brasiliense...”. Flávio Murrah comentou, na mesma entrevista, sobre as influências que caracterizavam o som do Hojerizah: “a gente não tinha referência de nada do que estava sendo feito no rock. O Hojerizah chegava no Western (bar carioca onde os Paralamas do Sucesso estrearam) falando de bebida, depressão e sexo, A gente tinha dificuldade de apresentar nosso trabalho, hoje seria mais fácil", acredita Murrah.
Ouvir o Hojerizah é como degustar um bom vinho. Aliás, fica a sugestão: abra um vinho, coloque o CD pra tocar e aprecie a união de música e letra que a banda faz de forma genial. Você não vai encontrar nada com essa qualidade feito no rock brasileiro hoje em dia...


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Postado por Marcos Assis | | Posted On quarta-feira, 9 de setembro de 2009 at 07:00



Artista – Marisa Monte
Álbum – Verde anil amarelo cor–de–rosa e carvão
Ano de lançamento - 1994

Marisa Monte é dona de uma voz fantástica. Herdeira das alma luminosas das melhores cantoras que esse país já teve, como Elis Regina, Dalva de Oliveira e Ângela Maria, Marisa apareceu do nada e, com apenas dois discos, conquistou o público e a crítica com sua interpretação doce, afinada e bem colocada. Cantando em bares no Rio de Janeiro, com um repertório regado a jazz e MPB, a menina acabou sendo descoberta pelo produtor Nelson Mota, que passou a produzir seu show Veludo Azul. Ela foi uma das únicas, ao menos que eu conheça, a gravar um disco de estréia ao vivo. Normalmente os artistas ou bandas só lançam um disco ao vivo depois de algum tempo de carreira, Marisa fez o inverso.
Cor–de–rosa e carvão é harmonicamente perfeito, com uma combinação limpa de violões, guitarras, baixo e percussão, fazendo a “cama” para a voz de Marisa. As músicas são parcerias com Arnaldo Antunes, Nando Reis e Carlinhos Brown, além de covers. O trabalho conta com o baixista Arthur Maia, um dos mais requisitados baixistas do Brasil, (tocou com Caetano Veloso, entre outros), Marcos Suzano na percussão, considerado um dos maiores percussionistas do mundo, (tocou até com David Bowie), Naná Vasconcelos, o mestre da percussão mundial, considerado o maior de todos,são alguns dos craques que participam do disco. Como se não bastasse, ainda fazem participações especiais, Paulinho da Viola, legenda do samba brasileiro, a Velha Guarda da Portela, senhores que levam no seu sangue boa parte da história do samba desse país e a americana Laurie Anderson, multi-instrumentista, artista plástica e ex-mulher de Lou Reed.
Cercando-se não de mestres, mas de mitos dessa grandeza, era esperado que o CD tivesse o mesmo brilho de seus participantes.
A sua versão para Pale Blue Eyes, do Velvet Underground, é quase uma canção de ninar, tal a delicadeza do violão acompanhando Marisa. Vale lembrar que regravações são sempre duvidosas, ainda mais de clássicos, mas a canção manteve sua qualidade. Balança Pema, de Jorge Ben, trás a percussão pegada de Marcos Suzano, a bateria de Jorginho Gomes e o baixo de Arthur Maia. Marisa divide os vocais com Gilberto Gil, quer mais?
Alta noite é daquelas músicas que a gente ouve o dia todo, sem cansar. A letra é de Arnaldo Antunes, com seu característico jogo de palavras. “Alta noite já se ia, ninguém na estrada andava. No caminho que ninguém caminha, alta noite já se ia. Ninguém com os pés na água...”
Dança da solidão, de Paulinho da Viola, é um daqueles sambas clássicos, fortes. A letra fala sobre desilusões, amores perdidos, com a pureza da poesia de Paulinho. “Solidão, palavra. Cavada no coração. Resignado e mudo. No compasso da desilusão... Viu! Desilusão, desilusão. Danço eu, dança você.Na dança da solidão...”.
O trabalho é um alquimia de talentos fantásticos, unidos por uma voz. Marisa continua fazendo boa música, se cercando dos mesmos parceiros. Mas esse álbum talvez seja inigualável em sua carreira.


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